Israel e Faixa de Gaza: de Saramago para Obama

O ano de 2009 não poderia começar pior: com uma gerra desproporcional e estúpida, como todas as gerras. Reproduzo abaixo o post “Israel” escrito por Saramago em seu blog. Essa guerra irá nos mostrar quem é Barack Obama e que decisões ele tomará diante de impasses como esse.

Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.

Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.

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Os cadáveres de cinco irmãs palestinas de 4 a 17 anos mortas no bombardeamento nocturno israelita a uma mesquita do campo de refugiados de Yabalia jazem na morgue de um hospital
Agencia France Press – Publicada en El País – 27-12-2008

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Marx, Obama e a Crise Atual do Capitalismo


"Tio Sam" demonstrando gestualmente a situação da economia mundial.

“O tempo foi passando, passando, a situação do mundo complicando-se cada vez mais, e a esquerda, impávida, continuava a desempenhar os papéis que, no poder ou na oposição, lhes haviam sido distribuídos. Eu, que entretanto tinha feito outra descoberta, a de que Marx nunca havia tido tanta razão como hoje, imaginei, quando há um ano rebentou a burla cancerosa das hipotecas nos Estados Unidos, que a esquerda, onde quer que estivesse, se ainda era viva, iria abrir enfim a boca para dizer o que pensava do caso. Já tenho a explicação: a esquerda não pensa, não age, não arrisca um passo. Passou-se o que se passou depois, até hoje, e a esquerda, cobardemente, continua a não pensar, a não agir, a não arriscar um passo. Por isso não se estranhe a insolente pergunta do título: “Onde está a esquerda?” Não dou alvíssaras, já paguei demasiado caras as minhas ilusões”. (José Saramago).

Inicio este post com esse trecho de Saramago, publicado recentemente em seu blog “Cadernos de Saramago” para mostrar o posicionamento  crítico que a “esquerda” internacional deveria ter perante essa crise do capital. Concordo com as palavras de Saramago, “a esquerda não pensa, não age e nem arrisca um passo”.

Para início de conversa gostaria de explicar de forma didática o que seria essa tal crise, que recebe a cada dia uma maior corbertura da imprensa internacional e deixa o mundo aflito devido ao caos instaurado e a sensação de incerteza. Acompanhem:

“Imaginem que eu venda pinga em uma badalada praia de determinado local fictício e vejo que vender esse produto seja um bom negócio. Em pouco tempo começo a vender para os bêbados que aparecem na praia essa mesma pinga à prazo, desse modo eu aumento o número de clientes e consequentemente o faturamento.

Como todo capitalista feroz que sou, essa possibilidade de enriquecimento cresce aos meus olhos e decido transformar essa quantia à receber (lembrem-se que vendi à prazo) em ações nas bolsas de valores.

Depois de vendidas, essas ações circulam pelo mercado financeiro e a especulação acaba chamando a atenção de outros clientes (mais gananciosos do que eu) ao redor do mundo, no entanto, há um pequeno detalhe…aqueles bêbados (pobres em sua maioria) lá da praia que compraram pinga à prazo não conseguiram honrar seus compromissos de pagarem as dívidas e deram um belo calote, gerando um imenso efeito dominó.

Resultado: muitos que investiram nesse mercado promissor saem sem nada e todo investimento feito não ganha liquidez, quem saiu ganhando foram os especuladores.” No caso dos EUA, o setor que desencadeou a crise foi o imobiliário.

caricatura de Benjamin Franklin em gesto de desepero com a queda das bolsas.

caricatura de Benjamin Franklin em gesto de desepero com a queda nas bolsas.

Essa minha tentativa de explicar o inexplicável serve apenas para mostrar o quanto o sistema capitalista é frágil, basta uma pequena trepidação para desmontar toda a estrutura do mesmo. De certo modo essa situação só mostra que a sociedade capitalista hoje instaurada, não é definitiva, ou seja, o capitalismo não é um sistema perfeito como muitos neo-liberais afirmaram durante o século XX, pelo contrário, trata-se de um sistema frágil, que pela segunda vez está à beira do colapso (como na crise de 1929).

Hoje, no 150° aniversário da publicação do Manifesto Comunista, a obra e o pensamento de Marx estão vindo à tona, haja vista que o mesmo 150 anos antes dessa atual crise, já havia mostrado sobre a instabilidade da economia capitalista, agrava pela ultra-rápida globalização do livre-mercado, que permite que uma quantia exorbitante de dinhero saia de um país e apareça em outro.

Segundo Hobsbawn “a recuperação do interesse por Marx está consideravelmente  baseado na atual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi nos anos noventa. A atual crise financeira mundial, que pode transformar-se em uma grande depressão econômica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado e obriga, inclusive o governo norte-americano, a escolher ações públicas esquecidas desde os anos trinta.”, ou seja, parece que finalmente até os capitalistas neo-liberais estão dizendo: “sim, ele tinha toda a razão” ao verem seus patrimônios se esvaindo nos ponteiros de Wall Street.

Um outra coisa que sempre me pergunto, vendo toda essa situação: Quem vai pagar a conta? Ora, somos nós. Felizmente o Brasil está aparentemente preparado, pelo menos é isso que o Goveno Lula diz, mas a população já sente de leve os efeitos da crise. Exemplo: obter financiamentos com juros abaixo de 1,5% só em sonho, obter 100% de financiamento em carro zero, só para quem tem excelentes condições e muito dinheiro em caixa para pagar. A diminuição do crédito também será visível em breve, pois mesmo que a crise não afete diretamente o consumidor final, o clima de desconfiança é grande e pode ser bem mais desastroso que qualquer alta de juros ou queda no valor das bolsas.

Para concluir, fazendo um paralelo com as eleições presidenciais nos EUA, parece que Bush veio acumulando erros desde 2006 sem interesse em corrigí-los a tempo, deixando até o seu candidato a sucessão em maus lençóis.  O grande beneficiado sem dúvida é Obama, que ao mostrar postura menos conservado diante da crise e ao lado dos “menos favorecidos, dos cidadãos americanos” que provávelmente herdará um bela recessão ano que vem, no 80° aniversário da crise de 1929.

Saiba mais:

Entrevista completa com Eric Hobsbawn aqui.

Entenda a crise aqui.