Gripe Suína: Ameaça Invisível

Em menos de uma semana, o vírus da gripe suína mobilizou o mundo inteiro, causou mortes e suspeitas. Hoje o mundo vive em estado de alerta. Se antes a gripe espanhola matou 50 milhões no século passado propagando o vírus por meio de embarcações, hoje um vírus como o da gripe súina pode matar mais e bem mais rápido.

Gripe suína: os porcos perigosos andam de terno

As hordas de turistas americanos regressaram de Cancún este ano com um souvenir invisível mas sinistro. A gripe suína mexicana, uma quimera genética provavelmente concebida na lama fecal de um criadouro industrial, ameaça subitamente o mundo inteiro com uma febre. Os brotos na América do Norte revelam uma infecção que está viajando já em maior velocidade do que aquela que viajou a última cepa pandêmica oficial, a gripe de Hong Kong, em 1968.

Por Mike Davis, no The Guardian*

Granja nos EUA: esterco e calor em escala industrial

Roubando o protagonismo de nosso último assassino oficial, o vírus H5N1, este vírus suíno representa uma ameaça de magnitude desconhecida. Parece menos letal que a Sars (Síndrome Respiratória Aguda, na sigla em inglês) em 2003, mas como gripe, poderia resultar mais duradour que a Sars. Dado que as domesticadas gripes estacionais de tipo “A” matam nada menos do que um milhão de pessoas ao ano, mesmo um modesto incremento de virulência poderia produzir uma carnificina equivalente a uma guerra importante.

Micróbios que voam pelo mundo

Uma de suas primeiras vítimas foi a fé consoladora, predicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na possibilidade de conter as pandemias com respostas imediatas das burocracias sanitárias e independentemente da qualidade da saúde pública local. Desde as primeiras mortes causadas pelo H5N1 em 1997, em Hong Kong, a OMS, com o apoio da maioria das administrações nacionais de saúde, promoveu uma estratégia centrada na identificação e isolamento de uma cepa pandêmica em seu raio local de eclosão, seguida de uma massiva administração de antivirais e, se disponíveis, vacinas para a população.

Uma legião de céticos criticou esse enfoque de contrainsurgência viral, assinalando que os micróbios podem agora voar ao redor do mundo – quase literalmente no caso da gripe aviária – muito mais rapidamente do que a OMS ou os funcionários locais podem reagir ao foco inicial. Esses especialistas observaram também o caráter primitivo, e às vezes inexistente, da vigilância da interface entre as enfermidades humanas e as animais.

Mas o mito de uma intervenção audaciosa, preventiva (e barata) contra a gripe aviária resultou valiosíssimo para a causa dos países ricos que, como os Estados Unidos e a Inglaterra, preferem investir em suas próprias linhas Maginot biológicas, ao invés de incrementar drasticamente a ajuda às frentes epidêmicas avançadas de ultra mar. Tampouco teve preço esse mito para as grandes transnacionais farmacêuticas, envolvidas em uma guerra sem quartel com as exigências dos países em desenvolvimento empenhados em exigir a produção pública de antivirais genéricos fundamentais como o Tamiflu, patenteado pela Roche.

A situação do México e a dos EUA

A versão da OMS e dos centros de controle de enfermidades, que já trabalha com a hipótese de uma pandemia, sem maior necessidade novos investimentos massivos em vigilância sanitária, infraestrutura científica e reguladora, saúde pública básica e acesso global a medicamentos vitais, será agora decisivamente posta a prova pela gripe suída e talvez averigüemos que pertence à mesma categoria de gestão de risco que os títulos e obrigações de Madoff. Não é tão difícil que fracasse o sistema de alertas levando em conta que ele simplesmente não existe. Nem sequer na América do Norte e na União Européia.

Não chega a ser surpreendente que o México careça tanto de capacidade como de vontade política para administrar enfermidades avícolas ou pecuárias, pois a situação só é um pouco melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância se desfaz em um infeliz mosaico de jurisdições estatais e as grandes empresas pecuárias enfrentam as regras sanitárias com o mesmo desprezo com que tratam aos trabalhadores e aos animais.
Analogamente, uma década inteira de advertências dos cientistas fracassou em garantir transferências de sofisticadas tecnologias virais experimentais aos países situados nas rotas pandêmicas mais prováveis. O México conta com especialistas sanitários de reputação mundial, mas tem que enviar as amostras a um laboratório de Winnipeg para decifrar o genoma do vírus. Assim se perdeu toda uma semana.

Mas ninguém ficou menos alerta que as autoridades de controle de enfermidades em Atlanta. Segundo o Washington Post, o CDC (Centro de Controle de Doenças) só percebeu o problema seis dias depois de o México ter começado a impor medidas de urgência. Não há desculpas para justificar esse atraso. O paradoxal desta gripe suína é que, mesmo que totalmente inesperada, tenha sido prognosticada com grande precisão. Há seis anos, a revista Science publicou um artigo importante mostrando que “após anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte tinha dado um salto evolutivo vertiginoso”.

Mutações mais virulentas a cada ano

Desde sua identificação durante a Grande Depressão, o vírus H1N1 da gripe suína só havia experimentado uma ligeira mudança de seu genoma original. Em 1998, uma variedade muito patógena começou a dizimar porcas em uma granja da Carolina do Norte, e começaram a surgir novas e mais virulentas versões ano após ano, incluindo uma variante do H1N1 que continha os genes do H3N2 (causador da outra gripe de tipo A com capacidade de contágio entre humanos).

Os cientistas entrevistados pela Science mostravam-se preocupados com a possibilidade de que um desses híbridos pudesse se transformar em um vírus de gripe humana – acredita-se que as pandemias de 1957 e de 1968 foram causadas por uma mistura de genes aviários e humanos forjada no interior de organismos de porcos – e defendiam a criação urgente de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína: advertência, cabe dizer, que encontrou ouvidos surdos em Washington, que achava mais importante então despejar bilhões de dólares no sumidouro das fantasias bioterroristas.

Gigantescos infernos fecais

O que provocou tal aceleração na evolução da gripe suína: Há muito que os estudiosos dos vírus estão convencidos que o sistema de agricultura intensiva da China meridional é o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico intercâmbio genômico. Mas a industrialização empresarial da produção pecuária rompeu o monopólio natural da China na evolução da gripe. O setor pecuário transformou-se nas últimas décadas em algo que se parece mais com a indústria petroquímica do que com a feliz granja familiar pintada nos livros escolares.

Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos muito debilitados.

No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um informe sobre a “produção animal em granjas industriais”, onde se destacava o agudo perigo de que “a contínua circulação de vírus (…) característica de enormes aviários ou rebanhos aumentasse as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também que o uso promíscuo de antibióticos nas criações de suínos – mais barato que em ambientes humanos – estava propiciando o surgimento de infecções de estafilococos resistentes, enquanto que os resíduos dessas criações geravam cepas de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou um bilhão de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).

O monstruoso poder dos monopólios

Qualquer melhora na ecologia deste novo agente patógeno teria que enfrentar-se com o monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e pecuários, como Smithfield Farms (suíno e gado) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática de suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas algumas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento de pesquisadores que cooperaram com a investigação.

Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como a gigante avícola Charoen Pokphand, sediada em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste Asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do vírus da gripe suína bata de frente contra a pétrea muralha da indústria do porco.

Isso não quer dizer que nunca será encontrada uma acusadora pistola fumegante: já corre o rumor na imprensa mexicana de um epicentro da gripe situado em torno de uma gigantesca filial da Smithfield no estado de Vera Cruz. Mas o mais importante – sobretudo pela persistente ameaça do vírus H5N1 – é a floresta, não as árvores: a fracassada estratégia antipandêmica da OMS, a progressiva deterioração da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industrializada e ecologicamente bagunçada.

* Mike Davis é professor no departamento de História da Universidade da Califórnia (UCI), em Irvine; artigo publicado originalmente no britânico The Guardian, reproduzido no La Vanguardia (México), Sin Permiso (Espanha) e Carta Maior (Brasil); intertítulos do Vermelho

A informação é uma das armas e aqui publico um texto recentemente recebido, publicado no periódico britânico The Guardian, com autoria de Mike Davis.

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[Conto] – Céu Vermelho

Este blog não é de ficção, no entanto, hoje ele tirará uma licença poética para publicar um conto (na verdade um exercício). Narra a história de H. e o surgimento de quantidades industriais de lixo que surgem sem explicação plausível.  É um conto relativamente pequeno, talvez seja ignorado. A reflexão deve ser de que um dia nossas atitudes irão condenar a nossa própria existência. O mundo não será destruído pelos nossos hábitos destrutivos, ele sobreviverá, como sempre sobreviveu a impactos maiores, nós que iremos desaparecer.

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Céu Vermelho

Era uma intensa noite de frio quando começou a jorrar pelos dutos do vilarejo uma quantidade exorbitante de lixo. Lixo sem origem, apenas surgiu sem se saber de onde veio e quem o produziu. Como uma enxurrada, os detritos, latas, plásticos, comida estragada, roupas, peças de computador, tudo o que o homem poderia produzir e jogá-lo nas lixeiras depois estava lá.
A família de H. estava pavorosa, nunca havia acontecido catástrofe de tamanha grandeza, a não ser a enchente de 1974 que desabrigou muitos moradores e derrubou uma centena de casas, mas de modo geral, o vilarejo podia se orgulhar de ser um local limpo, com coleta durante a semana, cada morador responsável pelo seu lixo, que era pouco, já que pelo poder aquisitivo do populacho, não poderia se dar o luxo de produzir lixo demasiadamente.
Com o tempo o lixo não se limitou a esvair somente dos dutos da cidade, passaram a sair das torneiras e dos chuveiros das casas em forma de um liquido viscoso e de cheiro desagradável, contaminando a água, provocando ojeriza. Aos poucos, a preocupação por parte dos moradores foi crescendo, como conter o avanço dessa praga (que nem era praga realmente, pois foi criada pelo próprio homem).
Nas cidades maiores, a situação não era diferente, havia montanhas e montanhas de lixo acumulado, lixo de vários tipos, sucatas de carros, pedaços de corpos humanos amputados, remédios, dinheiro picotado, papéis timbrados e até lixo de origem nuclear, provavelmente vindo de algum país do oriente médio.
A polícia deixou de combater e reprimir o crime, sua função agora era construir barreiras de contenção, dos bombeiros era lacrar bueiros que ainda não haviam explodido pela pressão causada por tanto lixo. Os efeitos na saúde do povo começavam a surgir, problemas respiratórios, por conta do gás tóxico que saia das pilhas de lixo, a população de roedores começou a dar as caras e a contaminar quem trabalhava diretamente na contenção do avanço do lixo. Os insetos também dominavam o local e as pessoas passaram a sair pouco para as ruas, com medo de contaminação.
Os governantes em reunião na cúpula mundial decidiram que a melhor forma de eliminar o lixo era queimando em enormes incineradores, desse modo, a população se livraria desse companheiro desagradável. Em pouco tempo, queimar o lixo em quantidade era comum, as fábricas de ferro e aço passaram a efetuar a queima também, fazendo com que o problema diminuísse consideravelmente, no entanto, as conseqüências dessa queima começaram a brotar dos céus.
Uma grande cortina de fumaça vermelha foi formada, cobrindo parcialmente a luminosidade do sol, a cidade ficou com o céu vermelho, o que assustou a todos. Os mais apocalípticos imaginavam ser o fim do mundo, mas não. Era só o começo do fim.
A queima do lixo foi paralisada por tempo indeterminado, pelo menos até encontrarem medida mais inteligente e eficaz.
No vilarejo de H. as coisas pioraram, as crianças ficaram doentes e sua esposa apresentava manchas na pele. Na casa não podiam mais ficar, pois estava tomada por detritos, exceto os quartos que não possuíam banheiro, onde a família se concentrava.
Com a situação crítica, muitos moradores começaram a ir embora do vilarejo, a abandonar tudo, suas vidas, suas lembranças, seus sonhos, tudo havia ficado para trás. A direção para onde todos caminhavam era incerta, mas todos tinham certeza de que ali não era lugar pra se viver, no meio da imundice, das doenças, dos insetos e ratos. Muitos deixaram seus veículos para trás, pois trafegar nas estradas era impossível, tudo estava interditado ou tomado por montanhas de lixo, atravessar a cidade somente a pé.
Enquanto o vilarejo se esvaziava, H. pensava na medida em que deveria tomar, já que sua família estava doente em virtude daquela situação, como viu que pouco poderia fazer para conter o lixo, que aquela altura parecia que havia estagnado. Ele imaginava que toda aquela situação iria acabar logo, do mesmo modo que surgiu, inexplicavelmente. Sua primeira atitude foi a de ir às casas abandonas pegar mantimentos e remédios, também foi verificar se algum morador havia resistido e ficado no vilarejo.
No litoral a coisa tinha piorado, o lixo começou a tomar conta do mar, mudando a coloração do mesmo, os peixes surgiram mortos na beira da praia e o cheiro era desagradável, surgiu também, uma quantidade enorme de tonéis enferrujados, provavelmente lixo tóxico estrangeiro. Nunca o mundo havia visto tanto lixo acumulado junto, parecia algo irreversível, surgido do nada.
Em poucas horas começava a chover, e como os cientistas haviam previsto, uma forte chuva ácida caiu em várias cidades, ao misturar-se com a fumaça produzida pela queima do lixo. As plantações já não existiam mais, em breve a fome se alastraria, já que tudo que foi plantado estava destruído e o solo contaminado.
H. conseguiu adentrar algumas casas abandonadas, muitas estavam impossíveis de entrar devido a quantidade de lixo, mas outras foram pouco afetadas. Conseguiu leite em pó e alguns enlatados, no caminho encontrou um gato abandonado deixado para trás por alguma família e que H. levou consigo. Ao chegar em casa disse:
– Esses mantimentos dão para alguns dias, depois terei que fazer novas buscas ou não teremos mais o que comer.
Seu filho mais caçula, intrigado e preocupado, perguntou:
– Quem fez isso? De onde veio tanto lixo? Quando voltarei pra escola?
– Em breve – disse H – em breve.
Na manhã seguinte, bem cedo o noticiário mostrava o caos instaurado. Tudo estava tomado, as pessoas estavam ilhadas em suas próprias casas, já os que tentaram fugir, ou ficaram muito doentes ou morreram, sendo deixado em meio ao lixo. Muitos ocuparam edifícios, assim ficavam longe da contaminação, mas em poucas semanas iriam morrer de fome, pois, ninguém tinha estocado nada e muitos supermercados sofreram saques. Enquanto isso, a quantidade de lixo só aumentava.
H. saiu em busca de alimentos, pra isso teve que usar roupas grossas, luvas e botas para evitar a contaminação, uma máscara também ajudava a não inalar o gás tóxico. Nessa jornada, encontrou alguns mantimentos e também pessoas, que por algum motivo foram esquecidas e deixadas para trás, muitos anciãos e crianças. H. insistiu para que o acompanhassem, assim ficaria fácil de enfrentar a crise, se é que isso era possível.
H. estava feliz, por ainda estar vivo e ao lado da família, ao mesmo tempo em que se sentia péssimo por dentro, pela angústia de não saber como será o dia de amanhã e por saber que todo aquele lixo foi produto criado pela humanidade, como tudo tem um preço, esse era o preço a ser pago, e com juros. H. tinha esperança que tudo iria voltar ao estado anterior.
Depois de três semanas de agonia e desespero, o lixo pára de surgir inexplicavelmente. De uma hora para outra, não surge mais lixo novo, o que surpreendeu a todos. Um milagre – pensaram muitos. No entanto, havia um problema, apesar da quantidade de lixo não ter aparecido, a população tinha que aprender a conviver com aquela situação. A solução foi mobilizar e convocar a todos para dar destino certo para montanhas e montanhas de lixo, separando tudo, do que realmente era lixo e do que não era. O que não era lixo e poderia ser reaproveitado ficava de um lado, já o que não podia ser aproveitado ou era incinerado ou escorria pelos esgotos. E todo esse movimento seguiu por longos meses, até que as cidades, ruas, avenidas e casas estivessem completamente limpas e livres de todo aquele lixo indesejado.
No vilarejo de H. a situação voltava ao normal aos poucos, muitos dos que fugiram do local, voltaram pra reconstruir tudo e quem havia sido abandonado voltou para casa. Muitos perderam entes queridos por conta do desespero. A maioria ainda não conseguiu entender o porquê daquilo tudo. Alguns enlouqueceram. Nunca foi tão difícil conviver com algo produzido por nós, algo que depois que deixava o limite de nossas casas, já não era mais responsabilidade nossa – pensou H.