De Sampa a Marabá

Texto recebido via Fórum Paraense de Educação no Campo, conta um pouco do enclave do minério na Amazônia.

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Luiz Ricardo Leitão

Em um país cujas dondocas fazem fila para comprar relógios de R$ 27 mil na joalheria Cartier, é de fato um crime gastar as verbas públicas com a educação dos jecas tatus que até hoje não se dispuseram a venerar o agronegócio e outras divindades da era (pós-)moderna

Escrevo de Marabá, ao sul do Pará, terra de gente valorosa, mas tristemente famosa pela truculência de seus velhos e novos “coronéis” e pela impunidade que campeia nas vilas e latifúndios da província. A cidade se divide em duas: a antiga, às margens do rio Tocantins, com mais charme e história; e a mais nova, em área mais afastada, uma invenção da ditadura, cujas vias públicas não são chamadas de ruas, nem avenidas, mas sim “folhas”, porque os militares a conceberam à feição de uma castanheira (que, por certo, a exemplo de outros projetos urbanísticos do Novo Mundo, hoje já está completamente “bichada”, corroída pela resistência antropofágica dos excluídos).

Aqui perto, a pouco mais de 100 km, está a Serra de Carajás, onde se exploram as maiores jazidas de ferro do planeta. A região é dominada pelas grandes mineradoras, dentre elas a todo-poderosa Vale do Rio Doce, que exporta nosso minério a preço de banana para China, Japão & cia. para que depois importemos trilhos ferroviários por preços dez vezes mais caros. Os trens de carga circulam dia e noite; já as composições de passageiros fazem apenas duas viagens semanais entre Carajás e São Luís – afinal de contas, pela lógica do capital, as commodities valem muito mais do que os peões que transitam entre o Pará e o Maranhão.

Da janela do hotel, ouço o apito da máquina e me arrisco a contar os vagões que se perdem de vista na linha do horizonte, mas desisto quando vejo que, ao final dos primeiros 180, há mais duas locomotivas a puxar outros tantos abarrotados de ferro. A explicação é simples e inquietante: a Vale dobrou os comboios e também pretende duplicar a via férrea a fim de acelerar a exploração das jazidas, cujas reservas, estima-se, teriam uma vida útil de 500 anos – e agora deverão exaurir-se em “apenas” 300 anos.

O movimento social, obviamente, não deseja subscrever mais três séculos de servidão (neo)colonial para Bruzundangas. Por isso, prevêem-se novos conflitos com a população local, pois até a imensa Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra está na mira da empresa. Curiosamente, embora um promotor gaúcho tenha escrito perfidamente que os sem-terra estariam a organizar uma “guerrilha” nos brasis, as únicas armas que encontrei até agora foram os livros, cadernos e projetor eletrônico que os educandos do Projeto Pronera /MST/UFPA manuseiam no campus universitário.

A burguesia raivosa que anseia por extinguir os cursos superiores oferecidos por convênio com as instituições públicas aos filhos dos lavradores e sequer reconhece o diploma dos médicos que se formaram em Cuba deveria visitar os cursos de Letras e Pedagogia que o projeto patrocina de norte a sul do país. Eles preparam, com enorme esforço e seriedade, os educadores das escolas básicas dos assentamentos rurais, cumprindo uma tarefa da qual nossa excludente sociedade jamais se ocupou. Não há instruções militares, nem “incitação” à violência: entre récitas de Vinicius de Morais e Patativa do Assaré, ou atentas leituras de Lima Barreto e Mário de Andrade, todos se ocupam de (re)ler e (re)interpretar as múltiplas facetas de nossa cultura e de nossa história. Suas armas, enfim, são apenas uma: o conhecimento capaz de desvelar o real para transformá-lo.

E isso tudo sai muito mais barato do que os US$ 40 milhões que Roberto Irineu Marinho (O Globo) e Abílio Diniz (Pão de Açúcar) pagaram pelo avião francês Falcon 7X, ou ainda os US$ 2,9 milhões que o publicitário Nizan Guanaes gastou com o jato Phenon, da Embraer. Contudo, em um país cujas dondocas fazem fila para comprar relógios de R$ 27 mil na joalheria Cartier, é de fato um crime gastar as verbas públicas com a educação dos jecas tatus que até hoje não se dispuseram a venerar o agronegócio e outras divindades da era (pós-)moderna. Afinal de contas, de Sampa a Marabá, quem se interessa pelos Fabianos e Severinos que o latifúndio continua a engendrar?

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular)