População denuncia ação de milícias [via Amazônia Jornal] 16/03/2014


Em março de 2014 o Amazônia Jornal publicou matéria sobre a suposta milícia que atua na periferia de Belém. De acordo com a denúncia, um grupo formado por traficantes, PMs expulsos e PMs reformados atuam na “eliminação” de jovens usuários de drogas. Leia a matéria:

Delegado nega existência de grupos de extermínio na terra firme e Guamá

Os homicídios nos bairros da Terra Firme e Guamá têm chamado a atenção de muitos moradores dessas áreas. Para muita gente, há milícias, financiadas por grandes traficantes, que matam jovens e ameaçam famílias. A polícia nega (leia texto abaixo).

Um morador da Terra Firme, que pediu para não ter a identidade divulgada, contou que os grupos são formados por criminosos e ex-policiais. “Há alguns anos, vimos esses grupos agirem, matando muitas pessoas. Depois, eles deram um tempo porque a polícia trabalhou direto na área. Agora eles voltaram e continuam matando quem estiver no caminho deles, seja envolvido com o crime ou não”.

Ainda de acordo com o relato desse morador, criminosos dominam a área. “Há muitos policiais que lutam para combater esse bando, mas o trabalho deles é difícil. Eu sei porque acompanhei a rotina de alguns deles e vi seu compromisso com a segurança pública. Mas eles são ameaçados e encontraram vários obstáculos”.

Outra reclamação feita pelos moradores da área é que pessoas inocentes são assassinadas por líderes dessas milícias. “Eles pedem dinheiro para as pessoas e matam quem estiver no seu caminho. É própria criminalidade matando a criminalidade, mas há também pessoas de bem que são vítimas. Quando eles estão incomodados com alguma pessoas, criam uma circunstância para que o crime aconteça”, contou o morador.

Para ele, a realidade da periferia de Belém se assemelha à rotina das favelas. “Temos que pedir licença para os traficantes. Eles são intocáveis. Circulam pelo Guamá e Terra Firme, usam principalmente um carro preto, mas também trocam para veículos de cor cinza e vermelho, para não serem reconhecidos”.

No bairro do Guamá, os moradores também afirmam que há uma milícia comandada por policiais reformados. Uma pessoa que mora no bairro e pediu para não ter a identidade divulgada conta que o grupo mata jovens, muitas vezes envolvidos com a criminalidade. “A gente ouve sempre falar em três nomes: ‘Peti’, Josias e ‘Sininho’. Esses três homens matam quem anda pela rua fora de hora, quem rouba e usa drogas. A gente até tem medo deles, porque sabemos que são perigosos. Muita gente aqui sabe onde eles moram, mas têm medo de falar qualquer coisa”.

Ainda de acordo com esse morador do Guamá, os crimes executados pelo bando também são realizados com o uso de um carro, da mesma forma que os moradores da Terra Firme relatam. “Eles mudam sempre o carro para não serem pegos, mas a gente sabe. Eu, quando vejo um carro todo preto, presto mais atenção e procuro sair de perto”, diz.

O morador do bairro conta que muitas pessoas que vivem nas ruas mais periféricas conhecem histórias de crimes praticados pelo grupo. “A gente ouve falar de meninos que foram mortos e casos em que a polícia mesmo nunca prendeu ninguém. Eles matam sem pena. Ouvi falar que eles pegam a foto da vítima e andam com ela no celular, para terem a certeza de que estão matando a pessoa certa. Algumas famílias tentam lutar, mas outras entregam na mão de Deus, porque têm medo. Eles que mandam e desmandam e ficam soltos por aí. A lei do silêncio é que prevalece por causa do medo que eles passam para as pessoas”, lamentou.

Homicídios são atribuídos a pistoleiros

O delegado Marcos Antonio Duarte, da Seccional Urbana do Guamá, garante que não há grupos de milícias nos bairros do Guamá e Terra Firme. “As pessoas têm um temor e acabam atribuindo os assassinatos que acontecem a um grupo de milícia, mas isso não existe. Pelo que investigamos, a gente acredita na existência de pessoas que são pagas pelos bandidos para cometerem crimes. São os famosos pistoleiros de aluguel, que cometem homicídios sob encomenda. Mas não há essa milícia que as pessoas afirmam”.

Para o policial civil, as milícias são grupos organizados que dominam áreas onde o Estado não chega e oferecem uma espécie de segurança a alguns moradores. “Nesses grupos há uma certa hierarquia, uma estrutura maior. Nas nossas investigações, não vemos isso. Até porque, aqui nessa área, a gente se faz presente, com rondas, barreiras e participação ativa na segurança da população”, comentou.

Marcos Antonio Duarte também explica que muitos homicídios que têm características semelhantes são associados, pela população, a grupos de extermínio. “Vemos homicídios com características parecidas, mas que nem sempre são cometidos pelas mesmas pessoas. A gente que investiga no dia a dia, observa que cada homicídio tem sua história. Algumas vezes são acerto de contas, briga de gangues, desentendimento entre grupos rivais, crimes passionais e dívidas por tráfico de drogas. Só que, pelo temor, as pessoas acabam atribuindo tudo a essa milícia que não existe”.

O delegado Duarte destaca que, em muitos casos, as pessoas se colocam em situações de risco. “O que a gente percebe é que muitas vítimas são jovens e viciados, envolvidos com o submundo do crime. Eles acabam devendo e são alvo dos acertos de conta. Além disso, algumas pessoas costumam sair na madrugada, usando drogas e bebendo. É nesse horário que a maioria dos crimes acontece”.

Carros pretos são usados nos ataques

Dois casos em que carros pretos foram usados por atiradores foram noticiados nos meses de janeiro e março deste ano. Alguns moradores do bairro da Terra Firme acreditam que um dos crimes – o assassinato de um cadeirante – foi cometido por integrantes de grupos de milícia. Em 3 de março, o cadeirante Lailson da Silva de Lima, de 26 anos, estava na passagem Nossa Senhora das Graças, próximo à rua Olaria, no bairro da Terra Firme, quando um veículo preto parou na direção dele. Logo em seguida, seis disparos foram feitos de dentro do carro. Lailson foi baleado na cabeça e nas costas.

Na ocasião, o chefe de operações da Divisão de Homicídios informou que Lailson já tinha passagem pela polícia por tráfico de drogas e era usuário de entorpecentes. Moradores da área disseram que, durante a madrugada, o veículo preto, que não teve a marca nem a placa identificadas, passou pelo local e alguém de dentro do carro, ao avistar a vítima, fez vários disparos.

Quando a equipe do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves chegou para fazer o trabalho de levantamento do local de crime, encontrou dificuldade, pois a cena do crime tinha sido descaracterizada. O cadeirante foi retirado da cadeira de rodas e colocado em cima de uma mesa de bilhar.

A Polícia Civil está investigando o caso, mas ainda não há informações sobre a motivação do crime.

Outro – Um veículo preto passou pela passagem Joana D’Ark, no bairro do Guamá, e dois homens fizeram mais de seis disparos contra Gleidson Gomes, 34. O crime ocorreu na madrugada de 19 de janeiro. A vítima estava em frente à residência onde morava no momento em que foi assassinada.

Os acusados desceram do carro e fizeram vários disparos na direção de Gleidson. Ele foi atingido na cabeça e no tórax.

O irmão da vítima, que foi testemunha do homicídio e não teve a identidade divulgada, contou que correu para se esquivar dos tiros. O jovem não soube explicar a motivação do crime e disse também que desconhecia a identidade dos atiradores.

No local do crime, a polícia não detectou qualquer envolvimento de Gleidson com a criminalidade.

Polícia pede ajuda para apurar os casos

A respeito das denúncias sobre pessoas envolvidas nos homicídios nos bairros do Guamá e Terra Firme, o delegado Duarte garante que todos os casos estão sendo investigados com muito cuidado pela polícia, inclusive as denúncias da população. “Nós estamos investigando essas situações. Todos os crimes estão sendo investigados pela equipe da Seccional Urbana do Guamá, com o apoio da Divisão de Homicídios. Se alguém estiver envolvido com esses grupos de extermínio, certamente essa pessoa será responsabilizada e punida. A partir do momento que alguém for identificado como autor de um crime, essa pessoa será indiciada e terá a prisão preventiva decretada”, explicou.

O delegado também lembra que a polícia está presente e que apura todas as denúncias feitas pela população. “Nós queremos indiciar as pessoas que cometem os assassinatos, independentemente de quem estão matando: se outros criminosos ou pessoas de bem. Homicídio é crime e deve ser investigado. Não é porque a vítima é uma pessoa ligada ao crime que sua morte não será investigada. Muito pelo contrário. Os nossos inquéritos são todos tombados, investigados, e muitas vezes conseguimos identificar a autoria. Muitos já estão até com a prisão preventiva decretada”, destacou.

Quanto aos crimes cometidos por homens em um carro preto, o policial civil acredita que o relato, ouvido tantas vezes, já se transformou em uma lenda urbana. “Em várias situações, quando a gente investiga, descobre que nem era um carro preto, como dito pelas testemunhas. Em outros casos, nem carro há. A gente lembra que muitos homicídios são cometidos também por atiradores em motocicletas ou bicicletas, os relatos deste tipo são comuns. Mas há um mito no bairro do Guamá sobre a existência de um carro preto”, conta o delegado Duarte.

Para ele, o temor das pessoas sobre assaltos, homicídios e crimes em geral faz com que todas essas versões ganhem força. “Existe um temor e tudo se atribui a grupos de extermínio. A violência não está só nos bairros do Guamá e Terra Firme, mas em toda a Belém. Por isso, a gente sempre pede que as pessoas colaborem com o trabalho da polícia, contem o que viram na cena de um crime e nos ajudem. Sabemos que existem criminosos que devem ser investigados e presos pela polícia e estamos justamente fazendo esse trabalho”.

Fonte: http://www.orm.com.br/amazoniajornal/interna/default.asp?modulo=831&codigo=695611

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