Crise na Educação Pública: Professora de São Paulo protesta e pede socorro ! (via Conversa Afiada)


Republico aqui uma carta de uma docente de São Paulo enviada à redação da TV Cultura de São Paulo em resposta a críticas direcionadas ao trabalho docente. A mesma crise que os educadores do Estado mais rico do Brasil também é vivida por quase todos os docentes espalhados no território brasileiro. A sociedade e a classe política deve encarar o professor como profissional capaz de promover a transformação social e tornar o Brasil um país menos desigual.

Vamos apoiar os professores!

Parabéns pela coragem de falar a verdade que o governo não quer ouvir profª Helena Morita.


Queridos,


Decidi que não irei me calar diante dos ataques da imprensa em relação aos professores.


Escrevi uma carta à Rede Cultura em resposta à matéria veiculada no dia 11 de maio a qual acusa os professores de descompromisso ao analisar a falta de professores na Escola Estadual Irmã Anete.


Compartilho-a com vocês e convido-os a manifestarem-se sempre que formos atingidos injustamente.


Avante, docentes!


Abraço!

Helena



São Paulo, 11 de maio de 2011


À Redação do Jornal da Cultura


O Jornal da Cultura tem inovado ao incluir em seu programa o debate e a pluralidade de opiniões. É com base nessa iniciativa louvável que me considero autorizada a criticar a cobertura dada ao caso da Escola Estadual Irmã Anete situada no bairro do Ermelino Matarazzo, a qual foi exibida no dia onze de maio.


As escolas estaduais estão, a exemplo da Educação no Brasil, atravessando uma crise sem precedentes e a análise dessa crise não pode se furtar, em hipótese alguma, de avaliar as condições de trabalho dos professores.


A imprensa tem se dedicado a denegrir a imagem desse profissional prestando, dessa forma, um colossal desserviço à Educação. Os professores faltam às aulas. Isto é fato. Não se explora, entretanto, o motivo dessas faltas. Mencionarei alguns de maneira breve.


A sobrecarga de trabalho, a qual envolve um grande número de horas trabalhadas por semana, em condições extremamente desfavoráveis e insalubres estão vitimando essa categoria profissional com um sem-número de doenças ocupacionais: problemas auditivos, devido ao altíssimo nível de ruído nas escolas, problemas graves no trato vocal devido ao esforço de falar por horas a um público numeroso que, em geral, não deseja lhe ouvir, problemas osteomusculares decorrentes dos esforços físicos repetitivos.


A cobrança excessiva pertinente às novas demandas da sociedade, as quais elegem a educação como a única ferramenta disponível para a solução dos mais diversos e complexos problemas sociais: temas como bullying, preconceito, intolerância, violência, meio ambiente, pluralidade cultural, além de todos os conhecimentos tradicionalmente ensinados na escola estão a cargo exclusivo do professor, e quando a sociedade falha, como na tragédia de Realengo (RJ), a mesma não tarda em apontar seu dedo ao professor e lhe dizer que ele é o culpado.


As expectativas da sociedade em relação ao trabalho do professor não acompanham de maneira alguma a valorização social de sua carreira, isto é, ao mesmo tempo em que aumentam as demandas da educação, diminui o prestígio social do professor. Pais, Governo, alunos e a imprensa fazem coro ao dizer o quão incompetente os professores são. Entretanto, poucos se dignam ao árduo trabalho em ‘chão de sala de aula’.


Os fatores mencionados acima se somam à violência no interior das escolas, à falta de materiais adequados, falta de programas de formação contínua e conduzem o professor a um beco escuro de onde ele vê a sociedade em crise e todos a lhe acusar. O resultado? Depressão, transtornos de ansiedade, estresse, doenças psicossomáticas, entre outros.


Decerto o vexaminoso salário fornece a esse quadro um régio desfecho. Os professores são heróis, e tenho a convicção que estaríamos em situação muito pior se algumas pessoas não estivessem dispostas a enfrentar uma conjuntura tão desfavorável e encarar uma rotina como a minha: 54 horas de trabalho semanais em sala de aula e muitas horas em casa lendo e preparando as atividades para os 400 alunos sob minha supervisão e cuidado.


Em tempo:


A Escola Irmã Anete fica na mesma rua do campus leste da Universidade de São Paulo. As duas instituições de educação pertencem ao governo do Estado. Convido-os a calcular o investimento percapita em cada uma dessas instituições. Não me surpreenderia se constatássemos que se gasta muito mais com os filhos da elite, os quais são egressos das melhores escolas privadas de São Paulo, do que com os filhos das classes menos privilegiadas aos quais resta a Escola Irmã Anete e a visão de uma Universidade tão próxima fisicamente e tão distante de sua realidade social.


E ainda, dar sequência ao programa exibindo a fala do Governador Geraldo Alckmin sobre o futuro aumento que será dado ao salário dos professores afeta de modo muito negativo, em minha modesta opinião, a busca pela imparcialidade.


Aconselho, finalmente, que chamem em momento oportuno, estudiosos e profissionais que possam falar de maneira autorizada sobre o que acontece na educação pública em São Paulo. Há muita gente honesta e dedicada estudando esse assunto, que poderá analisar o problema de maneira mais profunda, e não propondo, ingenuamente, mais métodos meritocráticos e simplórios de avaliação de uma sociedade que é complexa.


Helena Morita

Educadora

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