A Geografia do Crime em Belém


Entenda um pouco a origem da crimininalidade dos bairros do  Guamá e Montese (Terra Firme) com base no estudo do pesquisador Aiala Colares. Acredito que estudos como este ajudem a planejar políticas públicas direcionadas ao enfrentamento da criminalidade e o investimento em capital social.

Das plantações da folha de coca na Colômbia, Bolívia e Venezuela, a droga, transformada em pó, peteca ou pasta, chega ao Brasil via Itabatinga, no Amazonas. De lá, a mercadoria é transportada por rio até Abaetetuba, no Pará, e, em seguida, distribuída para todo o país. Em Belém, o produto vem pela baía de Guajará até o rio Guamá e atravessa o canal do Tucunduba, seguindo livremente em direção ao coração do bairro da Terra Firme. Essa é a “geografia do crime”, apresentada como resultado da pesquisa de Aiala Colares, geógrafo e especialista em Planejamento Urbano, integrante do grupo Observatório de Estudos em Defesa da Amazônia, pertencente ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará.

A monografia “A geografia do crime na metrópole: da economia do narcotráfico à territorialização perversa em uma área de baixada de Belém” tem como objetivo mostrar de que forma o tráfico de drogas condiciona a situação de violência urbana na capital paraense. A pesquisa de Aiala, orientada pelo professor Durbens Nascimento, realizou um mapeamento dos pontos de venda de drogas na Terra Firme e os problemas decorrentes desse comércio ilegal para as comunidades locais. De acordo com o pesquisador, o tema da violência ainda é muito negligenciado do ponto de vista acadêmico. Embora seja muito forte socialmente e recorrente na mídia, é um assunto pouco estudado, principalmente em se tratando do narcotráfico.

O bairro da Terra Firme surgiu na década de 50 como consequência de uma expansão populacional, não acompanhada de planejamento urbano. Com a valorização da área central da cidade, boa parte da população pobre de Belém se deslocou para as áreas de baixada, que eram vistas como espaço de ocupação provisória. Hoje, a Terra Firme tem mais de 60 mil habitantes e se encontra com outro bairro ainda mais populoso, o Guamá, com mais de 100 mil moradores, onde proliferam as áreas carentes de infraestrutura e de serviços públicos, situação propícia para que se revelem a pobreza e a miséria. Cria-se, então, um locus estratégico para a manifestação do tráfico e, assim, da violência.

“Onde o Estado se ausenta, a criminalidade se apresenta como boa oportunidade. E é aí que entra toda a teoria da escolha racional: a população que está desempregada, ganha pouco ou vive em situação de extrema pobreza é facilmente captada pelo tráfico. Desse modo, surge uma territorialidade precária e, a partir daí, a manifestação simbólica do tráfico. Isso não quer dizer que o tráfico e a violência urbana existam somente na Terra Firme ou nas áreas precárias e de ocupação espontânea, mas esses são fatores que propiciam essa manifestação social e disseminam esse conceito”, explica Aiala Colares, que também é um morador do bairro.

Moradores estigmatizados

Devido a essa lógica determinante, no caso da Terra Firme, todo o bairro fica estigmatizado. Alguns pontos são mais críticos, onde nem a polícia se aventura a entrar sem um grande aparato. “De acordo com o mapeamento realizado, merecem destaque áreas como a do Tucunduba, a da passagem Nossa Senhora das Graças, que é conhecida como o shopping da droga e a da Avenida Perimetral, onde existe uma disputa muito grande entre os próprios grupos, conflitos que geram homicídios entre os comandantes do tráfico”, continua o geógrafo.

E dentro de um bairro que vive uma segregação e uma realidade de exclusão tão intensa, que estigmatiza qualquer cidadão só pelo fato de residir no local, torna-se muito fácil entrar na criminalidade. “Grande parte dos jovens que entra no tráfico ou em bandos de assaltantes teve uma infância conturbada e traz o trauma da exclusão social. A maioria também começa a trabalhar muito cedo, sem ter estrutura educacional sólida. Nessa perspectiva, veem a margem de lucro muito maior no crime e no tráfico de drogas do que nos rendimentos ínfimos garantidos pela economia formal”.

Um exemplo: cinco gramas de pó de cocaína, droga muito consumida hoje, em Belém, equivale a R$ 100, quantidade vendida em menos de 10 minutos num ambiente como o de uma festa de aparelhagem. Um quilo de pó de cocaína custa de R$ 28 a 30 mil. “Tal estimativa de ganho atrai muito mais do que um salário mínimo. É dessa forma que, em algumas situações de desemprego, de desespero e de abandono, o tráfico, que proporciona vultosos lucros, colabora para que a realidade de violência predomine”.

A pesquisa demonstra que o comércio ilegal de drogas estabelece a configuração de territórios-zona e territórios-rede. O traficante da periferia está inserido na lógica da organização dos territórios-zona: ele atua no bairro, naquele local isolado e específico. Existem os pontos de venda e os territórios delimitados por esses grupos, os quais atuam de forma conjunta ou, então, entram em conflito com outros grupos. Já os territórios-rede envolvem uma escala muito maior, os centros de consumidores mais sólidos e fortes, que são os consumidores de elite e a ligação dos pontos de venda de pasta de cocaína com a produção dos países andinos – Colômbia, principalmente.

“Dessa forma, os bairros da Terra Firme e do Guamá se destacam como rota de passagem da droga, que é distribuída para os bairros da região metropolitana. Ou seja, a Terra Firme e o Guamá representam o ‘nó da trama’ das redes ilegais em que a droga se infiltra muito facilmente”, afirma o pesquisador. “Esse fato permite a compreensão de que o tráfico não nasce na periferia. É como se ele fosse consequência do sistema, manifestada a partir da realidade socioeconômica vivida nas periferias, e da realidade cultural do século XXI, pautada pela sociedade do consumo”, complementa.

Segundo Aiala, a economia do crime está dentro de uma integração perversa e se relaciona com o poder exercido pelos grupos que se envolvem em atividades criminosas e que impõem à comunidade determinadas regras. Esse conceito está associado à lógica daquilo que o pesquisador denomina de “territorialização perversa”. “Na periferia, o traficante não cria apenas uma relação de compra e venda, mas também uma relação de poder. Nas favelas do Rio de Janeiro, os traficantes se tornam responsáveis pela saúde e segurança dos moradores. Na Terra Firme, os assaltos e os homicídios ocorrem nas áreas dominadas pelos traficantes, pois é assim que eles demonstram ter poder”.

A situação se agrava quando o papel assumido pelo Estado alimenta comportamentos de revolta e violência ao atuar, basicamente, de forma repressora. “Para combater essa realidade, é preciso criar um ambiente social mais sólido, com planejamento urbano e desenvolvimento econômico. Nesse contexto, a Universidade tem um papel importante ao incentivar a criação de políticas públicas e ao implementar projetos de extensão”, finaliza o pesquisador.

Fonte: Jornal Beira do Rio UFPA

Leia o artigo completo publicado pelo NAEA/UFPA aqui.

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