Do riso ao trote: o nascer da violência


Encontrei esse texto de autoria de Sírio Possenti ao fazer uma prova, achei o texto ótimo, por tratar de uma questão pouco discutida: a origem da violência.

Andamos cansados de assassinatos em escolas, aqui e nos Estados Unidos, de guerras estúpidas e de trotes violentos que, de vez em quando, terminam tragicamente. Mas acho que deveríamos ser menos cínicos, e começar a considerar normais essas coisas, a não ser que decidamos ir fundo e pôr em questão também outras formas de relacionamento humano que tendemos a considerar não problemáticas.

Para começar, considere o caro leitor as piadas. Podem ser piadas relativas aos portugueses ou às loiras, mas as relativas aos homossexuais ou aos negros são exemplos mais evidentes. Freud acha que, quando fazemos uma piada, estamos de alguma maneira substituindo uma agressão física por uma agressão verbal, mesmo que a piada obrigue essa agressão a ser indireta. Se seguirmos Freud, admitiremos que o desejo de destruição do outro – de qualquer um que seja diferente – só não é posto em prática por repressão, dito de outra maneira, como efeito de civilização, que é em grande parte um conjunto de tecnologias para controlar pulsões, instintos. A distância entre uma guerra e uma piada racista é grande, certamente, mas ambas pertencem à mesma linhagem: são uma forma de agredir o outro, de expressar a certeza de que o outro não é como nós.

Jogar calouros que não sabem nadar numa piscina, durante um trote – ou convidados em festas caseiras – é, para muitos, apenas uma diversão. Pode ser verdade que não haja nenhuma intenção – consciente – de provocar a morte de alguém. Mas fica uma pergunta incômoda: por que divertir-se jogando os outros na água?

Mudo de cena, sem trocar de tema. Nos domingos à tarde, num dos programas mais assistidos da televisão brasileira, um ponto alto são as “vídeo-cassetadas”: em geral são cenas domésticas nas quais ocorre pequeno acidente inesperado. A sagrada família brasileira se diverte, o povo mais pacífico do mundo chora de tanto rir. Ri de alguém que se arrebenta, que corre risco de ferimentos, que sofre humilhações diante de platéias que se tornaram multidões por via da televisão. Um espetáculo de puro – pequeno? – sadismo.

Depois alguém dá um tiro em alguém por nada (por dá cá aquela palha, dir-se-ia) e todos nos horrorizamos, não entendemos de onde vem tanta violência. Ora, vem de dentro de nós, de todos nós. Se não cuidamos disso todos os dias, se não cultivamos a leveza e a delicadeza, só nos divertiremos com muito álcool, algum pó e alguém jogado na água. E se ele morrer, diremos que só estávamos nos divertindo um pouco. Não sabemos mais nada. Nem a semântica de “só”.

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