Como Festejei o Fim do Mundo – Duas críticas


Em meio a comemorações de Natal e fim de ano fui assistir o longa “Como Festejei o Fim do Mundo”. O filme superou as minhas espectativas, pois vi um filme sincero, sem pretensões maiores e com um toque poético. O filme foge daquela visão introspectiva que é comum em muitos filmes europeus, pelo contrário, envolve o espectador e mostra cenas simples, mas de significado macro, tal qual ocorre na vida.

Cabe lembrar que esse mesmo filme dialoga com “O Ano que meus Pais sairam de Férias” de Cao Hamburger, por ter a ditadura como plano narrativo, assim como o argentino “Kamchatka” e o chileno “Machuca”. Podemos perceber que todos esses filmes tentam de algum modo exorcisar de modo criativo os fantasmas que regimes totalitários deixaram como herança.

Para enriquecer mais o debate a cerca do filme, publico aqui duas críticas interessantes sobre o filme, um aperitivo para quem perdeu a exibição no Cine Estação.

Últimos meses do Nicolau Ceausescu na Romênia. Após destruir, com o namorado, busto do ditador, Eva é expulsa da escola e enviada para reformatório. Sua família, que vive com medo, recebe ajuda financeira de policial mal visto pela vizinhança, enquanto Lali, irmão caçula de Eva, fabrica planos mirabolantes e imagina sonhos impossíveis para sobreviver em meio à opressão que o cerca.

“Em Como Festejei o Fim do Mundo, Catalin Mitulescu poderia facilmente se colocar aos olhos de Lali, descambando ou para a representação onírica e surreal dos acontecimentos, ou para a construção de personagens com os pés fincados no exagero carnavalesco (todos os vizinhos de Eva, simpáticos e cordiais, se prestariam a tal jogo). No entanto, o cineasta escapa da armadilha, uma vez que substitui a alegria exultante, teatral, estilizada, fake e over de Emir Kusturica pela narrativa seca e direta, em que poucas emoções são demonstradas, na qual os personagens se contêm talvez com temor da ditadura que paira sobre suas cabeças e dos espiões à espreita. São planos bem enquadrados, corretos, quase acadêmicos; os movimentos de câmera se restringem a acompanhar a ação, sem malabarismos; luz e core escuras, opacas, fechadas; corta-se quando a cena se esgota, nem se prolonga, nem se antecipa: Mitulescu, desde o título – Como Festejei o Fim do Mundo –, parece negar e ironizar a possível influência do diretor sérvio de Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, Underground, Mentiras de Guerra, Vida Cigana e A Vida É Um Milagre. Não há festa, real ou simbólica, apenas a revolta muda, a espera agonizante e as tentativas desesperadas de abandonar o inferno.

Eva, de fato, tenta fugir para a Itália, ao travar amizade com novo e misterioso vizinho, transferido pelo governo ao bairro por, supostamente, manter atividades suspeitas. O envolvimento entre os dois, a cumplicidade crescente, leva à crise da relação entre Eva e o namorado e, em conseqüência, dela com a família, que depende dos favores econômicos e da influência política do pai / policial do, quem sabe, futuro marido da filha. Mitulescu realiza o clássico filme de comunidade, em que grupo social restrito atravessa conjuntamente as transformações que o meio lhe impõe, mas subverte a fórmula, na medida em que desloca e individualiza a protagonista quanto aos demais. Desajustada, a heroína de Como Festejei o Fim do Mundo se encastela no orgulho ferido, no ódio e na angústia contra as políticas do medo e do toma-lá-dá-cá que imperam na Romênia, fazendo de todos vassalos e cordeiros assustados. O único interlocutor com que Eva pode se expressar é seu irmão, Lali, de quem o cineasta retira traços em geral trabalhados nas crianças (doçura, inocência) para torna-lo corpo ainda mais estranho, verdadeiro paria que transita pelos acontecimentos históricos e os curto-circuita.

Lali decide recitar poema para Ceausescu a fim de mata-lo e, coincidência ou não, sua presença precipita as manifestações populares que derrubam a ditadura comunista. Ao contrário, por exemplo, de Forrest Gump, que apenas observa passivamente a História que o atravessa, indiferente e estúpido a ela, o menino de Como Festejei o Fim do Mundo a sente nos ossos, visualiza cada ínfima flutuação do ambiente – nas febres constantes que tem, quando busca o suicídio após a fuga da irmã, ao amaldiçoar o dente de leite que o impede de receber prêmio na escola. Mais do que simples narrador dos fatos que presencia, Lali se faz agente da mudança, como todos os vizinhos que, não satisfeitos em assistir a queda do regime pela TV, saem eles mesmos às ruas para participar do momento e comemorá-lo.

Catalin Mitulescu encarna o sonho de liberdade que seus personagens nutrem nas diversas imagens de barcos e de navios que aparecem ao longo de Como Festejei o Fim do Mundo. O diretor, porém, não se ilude, pois sabe que a morte de Ceausescu e de seu regime trouxe a economia de mercado e o capitalismo para o país. Eva é livre, agora, como comissária de bordo do transatlântico de luxo, longe da família, com seus óculos Adidas? Para onde vai o navio? Qual o futuro da Romênia? Mitulescu não conhece as respostas, mas soube fazer as perguntas.”

Fonte: Revista Contracampo

A DELICADEZA DA FANTASIA É A NOSSA MAIOR ARMA

Com muitas peculiaridades filme que retrata o fim da ditadura romena lança mão de alternativas não tão clássicas para fazer um típico filme de comunidade

Distribuído pela Pandora Filmes, Como Eu Festejei o Fim do Mundo, é um filme de peculiaridades. A primeira delas diz respeito ao próprio título. Se tratando de uma produção binacional, uma dobradinha cool entre França e Romênia, o nome original vagueia entre a sopa de letras balcânica com “Cum Mi-am Petrecut Sfarsitul Lumi” e o excesso de vogais e acentos latino em “Comment J’ai Fêté La Fin Du Monde”. A segunda é referente ao próprio atraso do filme para chegar à exibição no Brasil. Finalizado em 2006 só agora ele chega às telonas tupiniquins e em apenas uma única sala: a paulista HSBC Belas Artes (e em dezembro no Cine Estação em Belém). Mas vale a dica de entrar no Mininova. Tem versões pra todos os gostos boiando no site.

Bem, o filme narra a história de Eva Matei (aqui interpretada por Doroteea Petre), uma espécie de rebelde por acaso e que, depois de romper o namoro com o filho de um policial e sair do Juventude Comunista, é transferida para uma escola técnica (uma espécie de reformatório com estilinho de submundo europeu). Lá ela encontra um rapaz disposto a fugir do país. Sua família, que vive a mais sangreta das coerções, recebe ajuda financeira de um policial mal visto nas redondezas de sua casa. Enquanto isso, Lali, o irmão caçula de Eva, fabrica planos pra lá de mirabolantes e imagina sonhos impossíveis para sobreviver ao medo que os cerca.

A direção de Catalin Mitulescup foi mais que acertada. Ao invés de colocar a câmera pairando nos olhos de Lali e descambando para uma representação onírica da própria vida, ele escolhe a narrativa direta, seca e econômica que substitui a alegria exultante, teatral e fake em que poucas emoções são demonstradas, na qual os personagens se contém, talvez, com temor da ditadura que paira sobre suas cabeças e dos espiões que estão sempre à espreita.

Assim Mituslescu nos entrega um típico filme de comunidade, onde o grupo social determinado atravessa em conjunto as trasnformações que o meio impõe, mas isso subvertendo a fórmula clássica à medida que individualiza a protagonista dos demais. E completamente desajustada e deslocada, a heroína de Como Festejei o Fim do Mundo se enrola em seu próprio orgulho ferido, no ódio e na angústia contra as políticas do medo e a repercussão que as políticas do toma-lá-dá-cá governamentais fazem os cidadãos agirem do mesmo modo em suas vidas privadas. E seu único interlocutor é Lali, uma pequena criança que recita um poema para Ceauscu, o ditador Romeno a fim de mata-lo. E é essa delicadeza que faz com que o levante maior aconteça e chegue ao fim a ditadura.

Fonte: Revista O Grito!

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