A Pior Cegueira


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. (José Saramago)

Para os que não assistiram, assistam e não fiquem cegos com a realidade.

Para os que não assistiram, assistam e não fiquem cegos com a realidade.

Acabo de chegar da exibição do filme do aclamado diretor Fernando Meireles, baseado na obra de José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira -, uma produção brasileira, norte-americana e japonesa. Com o título original Blindness, o mesmo possui atores e atrizes consagradas, como Gael García Bernal , Julianne Moore, Denny Glover, Sandra Oh, Alice Braga e Mark Ruffalo.

O filme é mais que uma simples adaptação, posso dizer que não se trata de uma adaptação propriamente dita, mas sim de uma transposição fiel, já que o texto original e o roteiro original são praticamente os mesmos, é como se estivessemos lendo o filme ou assistindo o livro. A qualidade do filme surpreendeu até o próprio Saramago (que lacrimejou ao assistir ao lado de Meireles), que a mais de 10 anos se recusava a ceder os direitos do romance para a gravação do filme, acreditando que o cinema podaria as múltiplas possibilidades de interpretações da narrativa.

Blindness não é para todos, infelizmente, o mundo anda cego (ou não anda), pelo menos muitos que assistiram ao filme e detestaram as cenas grotescas e desumanas que foram retratadas, inclusive alguns críticos publicaram opiniões negativas, logo após a exibição do mesmo na abertura do Festival de Cannes. Disseram que o filme era depressivo. Oras, tem coisa mais depressiva do que a realidade de muitos atualmente? A realidade dos explorados no trabalho, das crianças abandonadas à própria sorte, da população sem educação, das cidades abandonadas e corroídas pela corrupção. Está tudo aí, só não queremos ver, pois parece que hoje não existe mais indignação em relação a certas situações. Uma pessoa assassinada, um paciente que morre por falta de atendimento no hospital, jovens largados e se destruindo por causa das drogas, tudo isso é comum e normal, já nos acostumamos a enxergar e a não ver coisas do tipo.

Ensaio sobre a Cegueira é uma metáfora cabível atualmente, a própria crise financeira nos dá exemplo de como somos cegos. Os governantes se mobilizam para ajudar bancos com bilhões e bilhões de dólares, ajudam a salvar da crise que eles mesmos inventaram, fruto da intensa especulação, no entanto, esses bilhões nunca vão para ajudar vítimas de catástrofes naturais (como as do Haiti, o furacão de Nova Orleans, os tsunamis na Ásia, etc.), ou para diminuir a fome, ou para investir em pesquisas para cura de doenças como a malária e AIDS, a conclusão é que ajudar o próximo não é lucrativo.

O filme, assim como o livro nos ajuda a enxergar e reparar como as coisas andam erradas e como há um grande interesse em não resolver nossos problemas, problemas esses que sempre serão alvo de lucros, ou seja, enquanto nossas mazelas forem lucrativas e estiverem sendo negociadas nas bolsas de valores, o mundo se tornará cada vez mais desigual e cruel para a maioria.  Devemos nos posicionar e enfrentar esses problemas deixando o nosso individualismo de lado, só assim conseguiremos mudar alguma coisa.

Lembrem-se de Rosa Parks há 53 anos atrás, que foi presa e condenada ao se recusar a dar lugar a um branco em um ônibus, mudou a história dos negros nos Estados Unidos, uma pequena atitude que mudou a realidade de uma grande parcela da população e hoje os negros norte-americanos (ou afro-descendentes), podem se orgulhar por terem eleito um presidente negro. Obama deve muito a Rosa Parks.

O mundo muda se nós mudarmos também.

Saiba mais:

Acesse o site do filme Ensaio sobre a Cegueira aqui.

Veja o trailer do filme aqui.

Leia o blog do escritor José Saramago aqui.

Sobre Rosa Parks aqui.

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