[Conto] – Céu Vermelho


Este blog não é de ficção, no entanto, hoje ele tirará uma licença poética para publicar um conto (na verdade um exercício). Narra a história de H. e o surgimento de quantidades industriais de lixo que surgem sem explicação plausível.  É um conto relativamente pequeno, talvez seja ignorado. A reflexão deve ser de que um dia nossas atitudes irão condenar a nossa própria existência. O mundo não será destruído pelos nossos hábitos destrutivos, ele sobreviverá, como sempre sobreviveu a impactos maiores, nós que iremos desaparecer.

352803

Céu Vermelho

Era uma intensa noite de frio quando começou a jorrar pelos dutos do vilarejo uma quantidade exorbitante de lixo. Lixo sem origem, apenas surgiu sem se saber de onde veio e quem o produziu. Como uma enxurrada, os detritos, latas, plásticos, comida estragada, roupas, peças de computador, tudo o que o homem poderia produzir e jogá-lo nas lixeiras depois estava lá.
A família de H. estava pavorosa, nunca havia acontecido catástrofe de tamanha grandeza, a não ser a enchente de 1974 que desabrigou muitos moradores e derrubou uma centena de casas, mas de modo geral, o vilarejo podia se orgulhar de ser um local limpo, com coleta durante a semana, cada morador responsável pelo seu lixo, que era pouco, já que pelo poder aquisitivo do populacho, não poderia se dar o luxo de produzir lixo demasiadamente.
Com o tempo o lixo não se limitou a esvair somente dos dutos da cidade, passaram a sair das torneiras e dos chuveiros das casas em forma de um liquido viscoso e de cheiro desagradável, contaminando a água, provocando ojeriza. Aos poucos, a preocupação por parte dos moradores foi crescendo, como conter o avanço dessa praga (que nem era praga realmente, pois foi criada pelo próprio homem).
Nas cidades maiores, a situação não era diferente, havia montanhas e montanhas de lixo acumulado, lixo de vários tipos, sucatas de carros, pedaços de corpos humanos amputados, remédios, dinheiro picotado, papéis timbrados e até lixo de origem nuclear, provavelmente vindo de algum país do oriente médio.
A polícia deixou de combater e reprimir o crime, sua função agora era construir barreiras de contenção, dos bombeiros era lacrar bueiros que ainda não haviam explodido pela pressão causada por tanto lixo. Os efeitos na saúde do povo começavam a surgir, problemas respiratórios, por conta do gás tóxico que saia das pilhas de lixo, a população de roedores começou a dar as caras e a contaminar quem trabalhava diretamente na contenção do avanço do lixo. Os insetos também dominavam o local e as pessoas passaram a sair pouco para as ruas, com medo de contaminação.
Os governantes em reunião na cúpula mundial decidiram que a melhor forma de eliminar o lixo era queimando em enormes incineradores, desse modo, a população se livraria desse companheiro desagradável. Em pouco tempo, queimar o lixo em quantidade era comum, as fábricas de ferro e aço passaram a efetuar a queima também, fazendo com que o problema diminuísse consideravelmente, no entanto, as conseqüências dessa queima começaram a brotar dos céus.
Uma grande cortina de fumaça vermelha foi formada, cobrindo parcialmente a luminosidade do sol, a cidade ficou com o céu vermelho, o que assustou a todos. Os mais apocalípticos imaginavam ser o fim do mundo, mas não. Era só o começo do fim.
A queima do lixo foi paralisada por tempo indeterminado, pelo menos até encontrarem medida mais inteligente e eficaz.
No vilarejo de H. as coisas pioraram, as crianças ficaram doentes e sua esposa apresentava manchas na pele. Na casa não podiam mais ficar, pois estava tomada por detritos, exceto os quartos que não possuíam banheiro, onde a família se concentrava.
Com a situação crítica, muitos moradores começaram a ir embora do vilarejo, a abandonar tudo, suas vidas, suas lembranças, seus sonhos, tudo havia ficado para trás. A direção para onde todos caminhavam era incerta, mas todos tinham certeza de que ali não era lugar pra se viver, no meio da imundice, das doenças, dos insetos e ratos. Muitos deixaram seus veículos para trás, pois trafegar nas estradas era impossível, tudo estava interditado ou tomado por montanhas de lixo, atravessar a cidade somente a pé.
Enquanto o vilarejo se esvaziava, H. pensava na medida em que deveria tomar, já que sua família estava doente em virtude daquela situação, como viu que pouco poderia fazer para conter o lixo, que aquela altura parecia que havia estagnado. Ele imaginava que toda aquela situação iria acabar logo, do mesmo modo que surgiu, inexplicavelmente. Sua primeira atitude foi a de ir às casas abandonas pegar mantimentos e remédios, também foi verificar se algum morador havia resistido e ficado no vilarejo.
No litoral a coisa tinha piorado, o lixo começou a tomar conta do mar, mudando a coloração do mesmo, os peixes surgiram mortos na beira da praia e o cheiro era desagradável, surgiu também, uma quantidade enorme de tonéis enferrujados, provavelmente lixo tóxico estrangeiro. Nunca o mundo havia visto tanto lixo acumulado junto, parecia algo irreversível, surgido do nada.
Em poucas horas começava a chover, e como os cientistas haviam previsto, uma forte chuva ácida caiu em várias cidades, ao misturar-se com a fumaça produzida pela queima do lixo. As plantações já não existiam mais, em breve a fome se alastraria, já que tudo que foi plantado estava destruído e o solo contaminado.
H. conseguiu adentrar algumas casas abandonadas, muitas estavam impossíveis de entrar devido a quantidade de lixo, mas outras foram pouco afetadas. Conseguiu leite em pó e alguns enlatados, no caminho encontrou um gato abandonado deixado para trás por alguma família e que H. levou consigo. Ao chegar em casa disse:
– Esses mantimentos dão para alguns dias, depois terei que fazer novas buscas ou não teremos mais o que comer.
Seu filho mais caçula, intrigado e preocupado, perguntou:
– Quem fez isso? De onde veio tanto lixo? Quando voltarei pra escola?
– Em breve – disse H – em breve.
Na manhã seguinte, bem cedo o noticiário mostrava o caos instaurado. Tudo estava tomado, as pessoas estavam ilhadas em suas próprias casas, já os que tentaram fugir, ou ficaram muito doentes ou morreram, sendo deixado em meio ao lixo. Muitos ocuparam edifícios, assim ficavam longe da contaminação, mas em poucas semanas iriam morrer de fome, pois, ninguém tinha estocado nada e muitos supermercados sofreram saques. Enquanto isso, a quantidade de lixo só aumentava.
H. saiu em busca de alimentos, pra isso teve que usar roupas grossas, luvas e botas para evitar a contaminação, uma máscara também ajudava a não inalar o gás tóxico. Nessa jornada, encontrou alguns mantimentos e também pessoas, que por algum motivo foram esquecidas e deixadas para trás, muitos anciãos e crianças. H. insistiu para que o acompanhassem, assim ficaria fácil de enfrentar a crise, se é que isso era possível.
H. estava feliz, por ainda estar vivo e ao lado da família, ao mesmo tempo em que se sentia péssimo por dentro, pela angústia de não saber como será o dia de amanhã e por saber que todo aquele lixo foi produto criado pela humanidade, como tudo tem um preço, esse era o preço a ser pago, e com juros. H. tinha esperança que tudo iria voltar ao estado anterior.
Depois de três semanas de agonia e desespero, o lixo pára de surgir inexplicavelmente. De uma hora para outra, não surge mais lixo novo, o que surpreendeu a todos. Um milagre – pensaram muitos. No entanto, havia um problema, apesar da quantidade de lixo não ter aparecido, a população tinha que aprender a conviver com aquela situação. A solução foi mobilizar e convocar a todos para dar destino certo para montanhas e montanhas de lixo, separando tudo, do que realmente era lixo e do que não era. O que não era lixo e poderia ser reaproveitado ficava de um lado, já o que não podia ser aproveitado ou era incinerado ou escorria pelos esgotos. E todo esse movimento seguiu por longos meses, até que as cidades, ruas, avenidas e casas estivessem completamente limpas e livres de todo aquele lixo indesejado.
No vilarejo de H. a situação voltava ao normal aos poucos, muitos dos que fugiram do local, voltaram pra reconstruir tudo e quem havia sido abandonado voltou para casa. Muitos perderam entes queridos por conta do desespero. A maioria ainda não conseguiu entender o porquê daquilo tudo. Alguns enlouqueceram. Nunca foi tão difícil conviver com algo produzido por nós, algo que depois que deixava o limite de nossas casas, já não era mais responsabilidade nossa – pensou H.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s