O dia que a Rede Globo calou


Qualquer pessoa lúcida e que tenha o mínimo de senso crítico, sabe que hoje a 4ª maior emissora televisiva do mundo se utilizou de meios nada democráticos para obter o poderio que hoje detêm. A mesma emissora que apoiava o regime militar de outrora, apoiava também o possível primeiro presidente civíl do Brasil (Tancredo Neves), também foi a mesma que ao manipular o debate presidencial de 1989, elegeu o então presidente-fracasso Fernando Collor de Mello.

Com o sucesso das novelas produzidas e com um jornalismo que ao invés de mostrar o caos vivido pela população, com mega índices inflacionários, poupanças confiscadas, entre outras mazelas, mostrava notícias menos impactantes,  parecia que o Brasil mostrado na Globo era um Brasil diferente, forjado a partir da apresentação de padrões de vida exigidos pela novela e de publicidades que apenas 20 % da população poderia comprar, lembrando que na época (década de 80-90), mais de 20% da população adulta era analfabeta plena ou funcional.

Assim foi a história da Rede Globo, que eliminou emissoras menores, elegeu presidentes, apoiou ditadores, omitiu notícias, desinformou a população e baniu completamente todos que eram contra o “regime global”, dentre esses, uma pessoa se destacou, o então Governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola (1922-2004).

A Rede Globo, dentre as inúmeras ações anti-democráticas,  fez pressão contra Brizola quando este postulava o cargo de Ministro da Fazenda de João Goulart e apoiou o exílio do mesmo. Em 1982, Roberto Marinho foi acusado de participar do caso PROCONSULT, que visava impedir a vitória de Brizola na eleição para governador de 1982.

Em resposta ao boicote promovido pela Globo, o então Governador Brizola, cancelou a exclusividade de transmissão do carnaval do Rio de Janeiro (principal produto da emissora) em 1984, quebrando o monopólio, concedendendo também o direito de transmissão para a extinta Rede Manchete.

Em 1989, Brizola liderava as pesquisas eleitorais para presidente, no entanto, devido a intensa veiculação de denúncias e acusações em rede nacional, sua popularidade caiu e Collor subiu absurdamente ao topo das pesquisas, cabe lembrar que Collor era o candidato da Globo. Não deu outra e o final dessa história vocês sabem.

Em 1992, Roberto Marinho, em  editorial publicado no jornal O Globo e no noticiário Jornal Nacional, chamou Brizola de “senil“. Durante dois anos, Brizola brigou pelo direito de resposta na Justiça Federal, que só foi lhe consedido em 1994. Pela primeira vez, a maior emissora do país foi obrigada a proferir palavras contra si própria, palavras que muitos brasileiros gostariam de dizer sem serem censurados, enfim, foi o dia em que a Globo calou.

Abaixo segue, na íntegra, o discurso de Leonel Brizola lido em rede nacional.

Nota de resposta:

“Todo sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui, citam o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro. Ontem, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar o editorial de O Globo, fui acusado na minha honra e, pior, chamado de senil.
Tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que use para si. Não reconheço na Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e, basta, para isso, olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura que por 20 anos dominou o nosso País. Todos sabem que critico, há muito tempo, a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou ontem, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípio. É apenas o temor de perder negócio bilionário que para ela representa a transmissão do carnaval. Dinheiro, acima de tudo.
Em 83, quando construí a Passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar, de todas as forma, o ponto alto do carnaval carioca. Também aí, não tem autoridade moral para questionar-me. E mais: reagi contra a Globo em defesa do Estado e do povo do Rio de Janeiro que, por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior. E isto é o que não perdoarão nunca.
Até mesmo a pesquisa mostrada ontem revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria, antes, um dever para qualquer órgão de imprensa. Dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção. Quando ela diz que denuncia os maus administradores, deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante de seu poder. Se eu tivesse pretensões eleitoreiras de que tentam me acusar não estaria, aqui, lutando contra um gigante como a Rede Globo. Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado.
Quando me insultam por minhas relações administrativas com o Governo Federal, ao qual faço oposição política, a Globo vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível. Quem sempre viveu de concessões e favores do poder público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesmo. Que o povo brasileiro faça seu julgamento, e, na sua consciência lúcida e honrada, separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis e gananciosos”.
Leonel Brizola
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Saiba mais:
Veja o vídeo completo da leitura do direito de resposta por Cid Moreira ao vivo no Jornal Nacional aqui.
Veja os documentos e os processos do episódio aqui.
Sobre a trajetória política de Leonel Brizola aqui.
Assista o documentário “Além do Cidadão Kane”, produzido pelo Channel 4 da Inglaterra e que mostra como o poderio da Globo foi construído e os métodos nada ortodoxos utilizados pela mesma para se tornar a 1ªmaior emissora do país e a 4ª maior do mundo. Documentário dividido em 4 partes, para ver clique aqui.

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