[Especial] Educação das Águas: retrato atual da situação educacional na região das ilhas de Abaetetuba.


Com dez anos de criação do principal projeto de educação para as populações rurais assentadas, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), podemos dizer que a missão principal do programa que é ampliar os níveis de escolarização formal dos trabalhadores rurais assentados está sendo cumprida, no entanto, há mais conquistas e avanços que a educação do campo ainda deve trilhar para conquistar o direito à educação de qualidade.

Segundo o professor e pesquisador Dr. Salomão Hage, que o coordena Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação do Campo na Amazônia (GEPERUAZ), a educação no campo deve ser instituída coletivamente pelos próprios sujeitos do campo, como um instrumento de construção da hegemonia de um projeto de sociedade includente, democrática e plural, ou seja, deve levar em conta a diversidade de sujeitos da Amazônia (indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses de terra firme e migrantes). Além da diversidade de sujeitos deve levar em consideração o conhecimento tradicional, valorizando seus métodos e técnicas, assim como a experiência de vida dos mesmos.

Na região ribeirinha de Abaetetuba, com o esforço da comunidade, apoio governamental e de universidades públicas, foi possível a implantação do curso de Pedagogia das Águas, que busca inserir estudantes ribeirinhos na educação superior, aliando conhecimentos teóricos e a prática do dia-a-dia da comunidade. Desse modo, a localidade é beneficiada, já que o profissional que está sendo formado conhece a realidade local e contribui para a inclusão dessa população tradicional que historicamente tem estado à margem do sistema educacional urbano-cêntrico, reafirmando o circulo vicioso; “de estudar para sair do campo” ou “de sair do campo para estudar”, diminuindo a auto-estima e descaracterizando suas identidades.

No âmbito da atuação do Programa de Vivência Estudantil Camponesa (PROCAMPO), foi possível observar a situação da educação na região de ilhas de Abaetetuba, em especial na ilha Sapucajuba. Após reunião com as dez localidades (Sapucajuba pólo, Urubueua cabeceiras, Urubueua Fátima, Anequara, Marinquara, Urucuri, Tauá, Rio Doce, Rio da Prata e Prainha), que integram o assentamento, a comunidade relatou os principais problemas referentes ao processo educacional.

Segundo a comunidade, se por um lado foi garantido o acesso a educação nas ilhas, por outro, a permanência dos estudantes ainda não foi plenamente assegurada, por conta de diversos fatores, dentre os quais se destacam as dificuldades em relação ao transporte, já que o acesso as escolas se dá por via fluvial, o que muita das vezes torna a viagem arriscada e dispendiosa, já que nem sempre as famílias possuem embarcações, como “rabetas” ou “cascos” para o transporte dos alunos, assim como a demanda de alunos é superior a capacidade de transporte que foi implantado recentemente e não cobre totalmente a região em virtude de sua extensão.

Além da questão do transporte, foi possível constatar que as escolas em geral não possuem recursos didáticos necessários para o desenvolvimento do ensino-aprendizagem em ambiente escolar, em muitos casos as escolas não possuem bibliotecas ou acesso a informática.

A distribuição da merenda escolar também foi outro ponto discutido, pelo fato de a merenda que chega às escolas ser insuficiente não atendendo a demanda de alunos, fator esse que contribui para a elevação da taxa de evasão, já que em muitos casos a merenda escolar servida é a única fonte de alimento para as crianças.

No que diz respeito aos docentes, a população reclamou da falta de professores e de cursos de capacitação para os mesmos, assim como a falta de compromisso para com a comunidade, já que alguns profissionais oriundos da sede do município abandonam turmas ou simplesmente deixam de exercer a função que lhes foi conferida responsabilidade, gerando transtorno tanto para os pais quanto para alunos, que ficam sem aulas, cabe as instituições governamentais responsáveis promoverem ações com intuito de resolver situações dessa natureza.

A partir das informações coletadas junto aos moradores podemos concluir que há muito o que fazer no âmbito da educação na região de ilhas de Abaetetuba e que os problemas são praticamente os mesmos em outras comunidades rurais e deve-se trabalhar de forma articulada (tanto Estado, quanto município e Associação de Moradores) no sentido de reduzi-los, para que a educação oferecida as comunidades ribeirinhas seja acima de tudo, de qualidade, emancipatória e democrática.

Saiba mais:

HAGE, Salomão. A importância da articulação na construção da identidade e pela luta da educação no campo.

http://www.educampoparaense.org/

http://www.segov.pa.gov.br/procampo/

http://procampo.wordpress.com/

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