O Exército de Reserva Qualificado na Era do Desemprego


por Edna Bertoldo
As sociedades de classes criaram os letrados e iletrados, escolarizados e desescolarizados, os sábios e os ignorantes, chegando a uma situação limite com o capitalismo, cujo surgimento/desenvolvimento colocou na ordem do dia exigências peculiares no plano das relações trabalho-educação. A existência de uma classe trabalhadora, aquela que produz a riqueza, sem instrução, sem o conhecimento mínimo necessário à reprodução social, já não poderia ser compatível com a nova ordem instaurada que passa a carecer de uma força de trabalho detentora de um saber minimamente adequado ao processo de produção, de um lado e, de outro, ideologicamente convencida de que o capitalismo é o único sistema capaz de tornar o homem feliz, por permitir que suas necessidades possam ser ampliadas e realizadas. Tudo só depende do indivíduo, do seu querer.
Esse sistema, que tudo prometeu, mas pouco cumpriu, tem difundido amplamente que o maior problema do mundo atual é a falta de qualificação, de escolarização elevada da força de trabalho. Só não conseguiriam trabalhar aqueles indivíduos que não estudaram, portanto, que não se qualificaram para o mercado de trabalho.
Ocorre, porém, que nunca vivemos tempos tão perversos como os de hoje, pois o que presenciamos cotidianamente é que, a rigor, quanto mais os indivíduos buscam se qualificar, mais difícil vai se tornando a sua inserção no mercado de trabalho. Torna-se cada vez mais freqüente o aumento, gradativo, do nível de escolarização de uma parcela significativa da força de trabalho, que tende a aumentar com a criação dos cursos de educação à distância, como também é visível a redução das oportunidades e precarização das condições de emprego, fenômenos requeridos pelo sistema no atual momento de acumulação do lucro. A concorrência, que só tende a acirrar-se, agora vem se dando entre indivíduos qualificados e não entre qualificados x não qualificados. Trata-se, na verdade, da existência de um exército de reserva qualificado.
O concurso para docentes e técnico-administrativos ora em curso na Universidade Federal de Alagoas[1] é um caso exemplar: para as 211 vagas ofertadas para o cargo de docentes do Campus de Maceió, inscreveram-se nada menos que 1700 professores, com titulação que varia entre Mestres e Doutores. Elevado além de qualquer medida é também o número de inscritos para ocupar as 60 vagas para o cargo de técnico-administrativos: nove mil candidatos.
No caso do Campus de Arapiraca, onde são oferecidas 38 vagas para docente, a disputa se dará entre 511 candidatos.
Esses dados indicam o quanto é falsa a ideologia da empregabilidade[2] difundida pelo capital ao afirmar que a qualificação é a porta de acesso segura para o emprego. A realidade nos mostra, ao contrário, que a qualificação da força de trabalho não traduz nenhuma garantia para a inserção do indivíduo no mercado de trabalho. Este, na verdade, enfrenta formas cada vez mais sofisticadas de competitividade cuja finalidade é dificultar seu acesso ao tão almejado emprego.
O exército de reserva, fenômeno produzido pelo capitalismo desde seus primórdios, intensificou-se de forma inédita no contexto da crise estrutural do capital e este, para dissimular seus efeitos negativos, acalenta a promessa da elevação da escolarização como a saída para enfrentar o problema do desemprego. Se, por um lado, não há a garantia de que o indivíduo sem o mínimo de qualificação tenha acesso ao emprego, por outro, não existem dados da realidade que comprovem que o indivíduo qualificado se torne empregável. O discurso ideológico da empregabilidade é mais uma das formas encontradas pelo capital para ofuscar aos olhos dos trabalhadores a causa essencial do desemprego e, em conseqüência, da pobreza de milhares e milhares de seres humanos: jovens, mulheres, homens, pais de famílias, idosos, negros, brancos, índios, enfim, de todos na luta pela sobrevivência.
Assim, desviando os indivíduos da causa principal que provoca tanta miséria humana, o capital busca com isto arrefecer a luta de classes e tornar os seus valores e seu objetivo fundamental, que é o lucro, o único horizonte possível a ser perseguido pela humanidade.

* Professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Alagoas. E-mail: edna_bertoldo@hotmail.com

[1] Dados divulgados na Folha Universitária, disponível em http://www.ufal.br/noticia.jsp?id=2381. Acesso em 06/5/2008.

[2] As pesquisas realizadas recentemente por Luciano Moreira Accioly (A empregabilidade nos Parâmetros Curriculares Nacionais: implicações e limites para a formação humana, Universidade Federal de Alagoas) e Helena Freres (A educação e a ideologia da empregabilidade: formando para o (des)emprego, Universidade Federal do Ceará), estão entre aquelas que se contrapõem à ideologia da empregabilidade.

PS: Recebi esse artigo via Fórum Paraense de Educação no Campo do qual faço parte.

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